Escândalo Íntimo – Luísa Sonza
"Um retrato cru e ambicioso da vulnerabilidade pop contemporânea."Contextualizando:
Atualmente, Luísa Sonza se destaca como uma das artistas que conseguiu, de alguma maneira, remodelar as características do seu próprio estilo musical. Desde seu primeiro álbum, "Pandora", lançado em 2019 – que a apresentou com hits pop cativantes e, com apenas 8 músicas (Versão Deluxe contando com 10 faixas no total), a estabeleceu como uma figura de grande influência –, muita coisa evoluiu. Hoje, passados alguns anos daquele começo, notamos que Luísa busca inovar em relação ao que estava acostumada a fazer. Mantendo a essência do pop que toca nas rádios, ela expande seus horizontes, indo além de colaborações animadas e canções apenas provocativas, buscando se transformar em uma musicista focada na inovação. Exemplos disso são seus projetos mais recentes, como o seu trabalho de Bossa Nova com Roberto Menescal e Toquinho, e o tão esperado álbum de pop rock "Brutal Paraíso". Mas o que motivou a artista a transitar com tamanha maestria por gêneros tão distintos? Para compreendermos essa resposta, é necessário retrocedermos a 2023.
Escândalo Íntimo, o terceiro disco da Luísa Sonza, chegou no dia 29 de agosto de 2023 e mostrou algo bem diferente do que ela vinha fazendo. Se em "DOCE 22" (2021) ela colocou pra fora toda a sua dor de um jeito muito intenso, aqui ela botou pra jogo o que sentia misturando, com ousadia, pop rock, EDM, bossa nova e até um pouco de sertanejo. É uma ousadia notável: ao longo de 24 faixas, Sonza tenta explorar cada gênero para narrar uma história de amores fracassados e seu intenso desejo de esquecer tudo isso, utilizando letras impactantes e uma sonoridade marcante. Após o sucesso do disco anterior, Luísa passou dois anos lançando singles isolados de grande sucesso. No entanto, ela não queria apenas mais uma coletânea de músicas; ela almejava um retorno triunfal que consolidasse sua música, sua trajetória e sua relevância cultural.
O ponto de partida dessa nova fase ocorreu em 15 de agosto daquele ano com "Campo de Morango". Um Hyperpop visceral que se tornou uma das músicas mais ousadas e inovadoras da artista. O lançamento causou grande repercussão e dividiu opiniões na internet devido à sua forte simbologia, letra ácida e sonoridade caótica. O impacto foi tão grande que colocou Luísa no centro das atenções. Assim se iniciava a era "Escândalo Íntimo": um projeto impulsionado por uma ambição artística imensa que, surpreendentemente, consegue se manter consistente do começo ao fim, mesmo que durante as faixas ainda haja algumas quebras de expectativas em relação a sonoridade ambiciosa.
Bloco 1: Paixão e Intimidade
No universo de Sonza, a artista se revela forte, mesmo exibindo fraquezas. O início do álbum é singular: a faixa "Escândalo Íntimo", um interlúdio, usa a sonoridade tensa de "Quarto de Hotel" (1974), do mestre Hareton Salvanini. Impossível pular essa faixa; seu arranjo evolui e resgata o passado de Luísa, preparando-nos para a próxima canção. "Carnificina" surge com brutalidade, soando como uma afronta na mente de Luísa, que mistura Pop e R&B, para encarar seus inimigos. Ela expõe luxúria e ousadia, com uma intensidade emocional nítida. A música flui para um lado instintivo, alertando que o álbum honra seu nome. Luísa não quer ser complexa, mas ninguém a compreende. Seguindo a linha de independência e toxicidade emocional, surge "Dona Aranha". Como o animal, Luísa domina um relacionamento tóxico, brincando com inglês e português sobre um pop com trap, um hino de empoderamento de uma persona nada desapegada. É uma baita faixa. "Luísa Manequim" complementa a energia, fundindo samba e pop rock ousado. Com o sample de Abílio Manoel (1972), ela usa sarcasmo e humor para falar da pressão estética sobre corpos femininos. Ela avisa: conhece sua imagem pública e não se abala. Nessas faixas, Luísa usa o lado "escandaloso" do álbum, mostrando confiança através de sarcasmo e mentes deterioradas. A sequência é retilínea e corajosa, elevando Sonza acima de seus trabalhos anteriores.
No entanto, essa trajetória impecável desvia com "Bêbada Favorita" (com Maiara & Maraisa). Apesar da correção vocal e da participação divertida, quebra a expectativa da Luísa poderosa. Ao optar pelo sertanejo pop, o disco abandona a agressividade e os samples geniais, entregando algo comercial e vulnerável. Não é ruim de maneira nenhuma, mas quebra a ambição do bloco das cinco faixas (contando o interlúdio), na minha visão, o álbum precisa de coerência. Inserida nesse bloco inicial de tanta ousadia, "Bêbada Favorita" soa deslocada; talvez funcionasse melhor em outro lugar. Aqui, deveria imperar a agressividade para, só depois, surgir o lado 'Íntimo'.
Bloco 2: Amor e Conexão
O começo foi um baque emocional para Luísa, um verdadeiro tormento. A artista transparece uma certa vulnerabilidade, mesmo se esforçando para demonstrar firmeza. Essa fase se inicia com "Interlúdio - Todas as Histórias", um áudio curto de 29 segundos que age como um prefácio, preparando o terreno para "Romance em Cena" (com Marina Sena). Unindo Pop com toques alternativos, Luísa usa seu timbre poderoso para expressar o anseio por um amor intenso e dramático. A canção aborda os altos e baixos dos relacionamentos. A participação de Marina Sena enriquece a faixa com vocais expressivos e sensibilidade. Mesmo sem ser inovadora, a música diverte e toca, do tipo: "ok, curti, próxima!". E então a coisa muda de figura. Surge "Campo de Morango", a música que causou furor na web. Uma ousadia maquiada de sensualidade que, no fundo, apela para a fragilidade. Ela carrega uma tensão emocional forte, ingênua e tradicional, acertando no Pop e R&B dramático. O problema é que ela destoa completamente! O início do álbum deixa uma interrogação sobre o que Luísa pretende construir ou apresentar. A letra funciona, mas a coerência se perdeu pelo caminho.
Logo após, temos "Surreal" (com Baco Exu do Blues), que tenta explorar o desejo intenso e as relações complexas através do R&B e do Rap. Após ouvir "Romance em Cena", "Campo de Morango" e "Surreal", me questiono: o que houve? O primeiro bloco tinha tanta força, lógica e ambição... E embora este segundo bloco tenha letras impactantes e uma identidade única, a ideia de "amor e conexão" soa superficial pela forma como as músicas foram organizadas. Luísa pecou na ordem das faixas, tornando a experiência de ouvir o álbum inteiro bem desconfortável. Felizmente, a experiência melhora com "Iguaria", um R&B contemporâneo onde Luísa usa metáforas sutis sobre um namoro em seus estágios iniciais. Aqui a faixa finalmente dá sentido ao bloco: a suavidade na voz e as metáforas criam o equilíbrio perfeito entre a vulnerabilidade e a audácia do "íntimo". Em seguida, temos "Chico", um pop brilhante disfarçado de Bossa Nova. Luísa evoca sentimentos sobre relações pessoais e humanas, transformando-a na faixa mais linda do álbum.
Não muito atrás, Luísa e KayBlack brilham em "Sagrado Profano", um R&B genial e um Rap certeiro que contrastam as inseguranças e os dois lados do amor. O bloco se encerra com o "Interlúdio - De Amor", que funciona como uma transição perfeita para a próxima fase de decepção e fragilidade. Este bloco é uma montanha-russa. Ele perde o gás nas faixas iniciais que foram mal posicionadas. Se você ouvir o disco na sequência, a experiência se torna cansativa e dá vontade de pular algumas músicas. No fim das contas, se o primeiro bloco desceu como um vinho maravilhoso, este segundo bloco entrega um vinho bem mais peculiar: um gosto amargo que, no final, valeu a pena.
Bloco 3: Decepção e Fragilidade
Após nos aprofundarmos nas emoções de Luísa e seus amores não retribuídos, chegamos à parte tida como a mais intrigante do álbum. A mudança surge com "La Muerte" (com Tokischa). A canção é interessante e emprega metáforas de morte para explorar o término de sentimentos. A faixa se destaca pela interação divertida entre as artistas e pela letra em espanhol, mostrando a habilidade de Luísa com outros idiomas (como já vimos em "Dona Aranha"). Contudo, acho que o Pop urbano com Latin trap aqui se acomodou demais. Não era o estilo ideal para abordar um tema tão profundo.
Essa sensação de esquisitice persiste em "Onde é Que Deu Errado?". A música explora a desilusão amorosa e o autoquestionamento de maneira sincera, mas o sertanejo contemporâneo não pareceu a escolha mais acertada. Letra, voz e performance são boas, mas a melodia parece fora de contexto. Se em "Bêbada Favorita" o sertanejo funcionou graças ao carisma de Maiara & Maraisa, aqui a música fica em um "meio-termo" sem ousadia.
Por sorte, "O Amor Tem Dessas (E é Melhor Assim)" acerta ao evocar uma atmosfera MPB e Pop atual que me lembra os melhores momentos do DOCE 22. Mas o ponto forte do bloco — e do álbum em termos de impacto — é "Penhasco2" (com Demi Lovato). Falando sobre solidão e fragilidade extrema, a faixa se apoia em vocais poderosos. O esforço de Demi Lovato em cantar em português é admirável. É uma linda canção que revisita o passado de Luísa de forma grandiosa.
O problema real desse terceiro bloco é o cansaço. Músicas como "Outra Vez" trazem um bom R&B, mas que não apresenta nada de novo e acaba soando como várias outras do álbum. Eu imaginava que Luísa iria ousar e experimentar coisas diferentes nesse bloco, mas ela preferiu não se arriscar. O rock pop e a Bossa Nova marcante ficaram para trás, dando espaço a uma repetição monótona de R&B melancólico. O "Interlúdio - Dão Errado", que inteligentemente utiliza um trecho de "Não Me Deixe Só" (2002), da talentosa Vanessa da Mata, para enfatizar a ideia de desilusão amorosa.
Porém, como eu disse antes isso fica claro na vigésima faixa, "Principalmente Me Sinto Arrasada". Mesmo sendo o auge da fragilidade emocional da artista na história do álbum, a música perde força por vir depois de tantas outras parecidas. Se encurtássemos esse bloco drasticamente e deixássemos apenas "Penhasco2", o álbum perderia algo? Acredito que não. O Bloco 3 sofre com a repetição e parece focado em criar trechos de 15 segundos para bombar em redes sociais. No fim, restam letras lindas presas em ritmos cansativos e confusos.
Bloco 4: Superação e Reflexão
"Escândalo Íntimo" possui uma identidade marcante; o álbum acena para a década de 80, mantendo-se conectado ao presente, com críticas tanto no som quanto nas letras. Contudo, o projeto poderia ser mais refinado nesse aspecto. A escolha dos singles promocionais pareceu influenciar a estética visual e sonora do álbum de forma inconsistente. Observo que este álbum se inspira em projetos como o aclamado "AmarElo" (2019), do Emicida, que explora o emocional com experimentação sonora e colaborações diversas — algo que, no disco do Emicida, teve um aproveitamento superior.
Iniciamos o quarto e último bloco com "Ana Maria" (com Duda Beat). Uma letra leve e descontraída que reflete sobre experiências amorosas e sociais com ironia e autodepreciação cômica. Apesar do tom divertido, considero a faixa fraca para um álbum que almeja ser impactante. No Bloco 1, Luísa também utilizou humor e leveza, mas sobre rock, pop e gêneros ousados que cativavam o ouvinte. Em "Ana Maria", ela opta por um pop melancólico que se destaca como "apenas mais uma faixa do álbum". A participação de Duda Beat não adiciona força, apenas complementa.
Em contraste, "Lança Menina" nos transporta para o passado com um Rock Pop brasileiro divertido, utilizando um sample da música homônima da lendária Rita Lee (1980). O sample é impecável e confirma Luísa Sonza como uma artista genial. Essa é a abordagem que ela deveria ter adotado em todos os blocos: experimentar, modernizar e ambicionar.
Entretanto, na reta final, Luísa parece apenas "encher espaço" com faixas extras para inflar um álbum que poderia ser perfeito com apenas 14 músicas. Isso fica evidente em "Não Sou Demais", onde ela retorna ao Pop com referências de R&B que não inovam. A faixa se torna apenas mais uma para pular, mesmo que seja apreciada pelos fãs.
A finalização triunfal é a participação de Caetano Veloso em "You Don't Know Me". Um pop MPB que demonstra a capacidade de Luísa de romper barreiras. A inclusão de Caetano em uma faixa bilíngue tão clássica, tradicional e genial conclui com grandeza a narrativa de autoconhecimento e amadurecimento que ela buscou delinear em seu terceiro álbum.
Conclusão
"Escândalo Íntimo" é a experimentação de uma artista arriscando-se em novos gêneros. Sua ambição de manter o álbum no topo das paradas é evidente nos quatro blocos: Intimidade, Amor, Decepção e Reflexão. No entanto, o projeto vacila ao insistir em uma duração excessiva, com faixas que poderiam ter sido descartadas em prol de um trabalho mais focado, coeso e verdadeiramente escandaloso.